Mochilão na Europa semana VI – De Paris até Amsterdã

Domingo fui até Versailles(se diz versai) com dois canadenses, um franco-canadense de Quebec e o outro normal. O palácio todo girava em torno do rei, então logo na entrada tem uma praça e uma avenida. Isso porquê ambos estão alinhados com a cama real, para que o rei, já ao acordar, veja o sol “pai” e a França, “sua propriedade”.

Versailles, em versão minúscula

Ao sairmos de lá encontrei a médica catarinense numa coincidência incrível. Com ela então fui passear pelo centro de Paris e conheci um pouco mais do Sena. À noite fui com um grupo (cinco brasileiros e um canadense “quebecoir” para traduzir tudo, coitado) a um restaurante grego comer comida francesa!!! E estava bom, o único problema e que não me deixaram quebrar nenhum prato, tsc, tsc.

Na segunda eu tive problemas enormes para lavar a roupa, parece-me que as máquinas francesas só funcionam com quem fala francês. À tarde embarquei no TGV para Brugges, na Bélgica (que pra variar deu tudo errado, porque as coisas francesas não gostam de mim).

Já na Bélgica foi a maior dificuldade conseguir um trem para Brugges devido a uma greve dos ferroviários, acabei chegando quase oito horas da tarde no albergue. Eu já estava me saindo bem, enrolando com um francês dos mais chutados quando me liguei que nesta região do país se fala holandês.

Brugges

posteriormente cheguei à conclusão fantástica de que todos os belgas falam uma quantidade enorme de línguas, entre elas alemão, francês, holandês, inglês (todos falam inglês) e às vezes até português. O albergue onde eu fiquei era meio restaurante também, então aproveitei e jantei ali mesmo. É um orgasmo lingüístico ler um cardápio em cinco línguas diferentes.

Ao meu lado estava uma professora norte-americana que puxou papo, conversa vai, conversa vem e ela me pergunta quando eu comecei minha viagem, eu respondo “eastern”, ela não entende e eu repito, continua sem entender e eu explico que é uma data associada a ovos de chocolate e coelhinhos. “Ahh Easter” ela disse, eu pra variar acabara de cometer uma terrível em uma língua que eu julgara conhecer bem.

Na terça fui conhecer a cidade com uma australiana que mora em Londres e só ficava dizendo “Ó como é barato” e “lovely”, e eu pensando “que barbaridade, tchê!!!”. Nós visitamos a igreja do sangue santo, ou algo assim e demos uma volta pelos canais da cidade.

Brugges, para quem não sabe, é mais uma das cidade abaixo do nível do mar naquela região, portanto tem diversos canais de drenagem. Através destes canais nós fizemos um passeio de barco com um motorista que falava francês, holandês, alemão e inglês.

A cidade é também chamada de Veneza do Norte. No final da tarde ainda peguei um trem até Oostende para ver o Oceano Atlântico de um outro ponto de vista, do lado Leste. Oostende é tudo o que se imagina dos países baixos, os canais ficam em diques acima do nível da cidade e para se ir à praia é necessário subir uma lombada.

Oostende, diretamente do TrekEarth

Na quarta pela manhã visitei o museu de arte de Brugges, que possui um acervo bastante rico de obras flamencas e holandesas. À tarde fui para Bruxelas que me pareceu estar sob reformas (a cidade inteira), lá encontrei um irlandês de ressaca (às vezes me parece que os irlandeses sempre estão de ressaca ou bêbados).

Acabei exagerando nesta parte e pareci hostil, ainda mais porque na época eu estava abstêmio. Nós fomos até o centro medieval da cidade onde há uma praça cercada por belíssimos prédios históricos e é só o que há em Bruxelas.

À noite ainda fui checar a praça novamente, desta vez iluminada, me disseram que valia a pena e tal. Então fui. Mas não valeu a pena não, pois na hora de voltar o sistema de transporte coletivo já havia sido encerrado e tive de caminhar algumas horas só no escuro numa cidade desconhecida para voltar ao albergue.

Na quinta pela manhã fui para Utrecht, na Holanda. Utrecht por si só não vale a visita, mas como eu queria estar perto de Nijmegen onde ocorreria no sábado o Dynamo Open Air 2002, foi minha primeira escolha. Havia dois albergues em Utrecht, um associado à Albergues da Juventude e outro independente. O primeiro estava lotado, e o segundo oferecia internet ilimitada. Decidi pelo segundo, é claro.

Os atendentes foram muito grossos ao tentar indicar-me como chegar ao estabelecimento, mas eu achei “tudo bem, ou posso perguntar na rua e então me acho”, mas ninguém sabia onde ficava o maldito lugar. Fiquei perambulando durante quatro horas pela cidade sem idéia de onde ir até encontrar o lugar.

Apesar da internet gratuita, os teclados não funcionavam direito e lá se foi a grande vantagem da espelunca. No quarto haviam dois ingleses, sendo que um estava tão sequelado de fumar maconha que mal conseguia se fazer entender e o outro só ficava repetindo histórias de como o muquifo onde nos encontrávamos era podre e nos intervalos dizer “Welcome to Hell!”.

A salvação foi bater-papo com um francês simpático sobre futebol, claro. Papo de homem é assim memso, sabe como é. Antes de dormir sempre escovo os meus dentes, mas como não encontrei nenhuma pia em nenhum dos diversos banheiros desisti, não tomei banho também, pois o lugar era muito podre.

Na sexta pela manhã, em uma hora incrivelmente cedo que também mentira sobre o café da manhã e fui para Amsterdã, a cidade do sexo e das drogas, hehehe (esse é um hehehe mental, viu).

Amsterdã, a cidade torta
Esta foto eu roubei do Márcio

Ao chegar lá fui direto a um telefone tentar reservar uma cama para mim, mas aparentemente a cidade já se encontrava lotada. Às 11 da manhã, apelei então para organizadíssimo VVV (serviço de informações turísticas em holandês) para achar lugar em um albergue qualquer. Recomendo muito o serviço.

Ao esperar na fila conheci um suíço e uma vietnamita radicada nos EUA, conversa vai, conversa vem, acabamos indo para o mesmo albergue, junto com mais um suíço e mais uma vietnamita-americana (o sotaque delas chegava a irritar os meus ouvidos). Ao chegarmos no albergue, só poderíamos entrar no quarto uma hora depois, pois ainda estavam sendo limpos. Fomos comer um café da manhã num bar próximo, que por acidente era um bar gay.

Havíamos nos instalado num albergue próximo a uma área gay de Amsterdã. Mas tudo bem, a vida continua, e já que ninguém pareceu se atucanar com aquilo, eu não seria o primeiro.

Á tarde passeamos pela cidade inteira, comemos um pão com cebola e queijo (coisa de holandês). Os prédios de Amsterdã, principalmente os que estão à beira de algum canal parecem sempre estar prontos para cair, tal é sua inclinação.

Felizmente Sergio Naya não tem empreendimentos na Holanda.

Todos os canais da cidade possuem um cor verde musgo e por eles navegam barcos lotados de turistas, às vezes alguns barcos particulares passavam com gente bêbada dançando e fazendo festa. è uma espécie de Salvador onde todo mundo fala inglês (não, não se fala holandês por lá).

À noite fomos ao Red Light Distric, a mundialmente famosa zona do baixo meretrício holandesa. O bairro é um paraíso para todos os sexólatras endinheirados do mundo, pois como tudo o mais na Holanda, o sexo também é caro. Nesta zona as mulheres ficam expostas em vitrines como se fossem sapatos e ao cliente basta negociar o preço e o programa. É um mercado perfeito.

No sábado pela manhã fui para Nijmegen participar do Dynamo Open Air. No primeiro instante, eu pensava que seria recomendável estar acomodado numa cidade próxima ao festival, mas a Holanda é tão pequena que se atravessa o país num trem em poucas horas (2-3 se tanto).

A Holanda é um país pequeno, mas eu só descobri isso lá…

Na poltrona à minha frente estava um casal espanhol em lua de mel, e no primeiro instante conversei com eles em inglês, pois não sabia sua procedência. Momentos depois éramos hispanohablantes, apesar de eu não entender quase nada do sotaque madrilenho da mulher.

Descontando um picolé, passei praticamente o dia inteiro sem comida e quando começou o esperado show do Iron Maiden desabou uma chuva torrencial. “Fuck the rain”, disse Bruce Dickinson e a massa repetia. Esse show depois virou DVD.

Eu é claro que não tinha proteção nenhuma, então descolei um pedaço de papelão para me servir de cobertura. Tive de desistir após alguns minutos e pensar em estratégias para secar o meu corpo.

Passei a torcer minha camiseta de cinco em cinco minutos com a ajuda de alguns holandeses que falavam comigo e eu me limitava a sorrir caso eles sorissem, senão acenava com a cabeça. Como eu me sentia limitado por não falar a língua deles!

Agüentei com estas estratégia um pouco mais de uma hora de show e então voltei para a estação de trem para retornar à Amsterdã. Eu estava incomparavelmente cansado e faminto, com sono e frio, portanto acabei dormindo por alguns minutos no trem.

Eu estava descaordado na hora exata em que se passava pelas TRÊS estações de Amsterdã, e tive de descer em Heiloo, uns quarenta minutos mais adiante, e como não haviam mais trens àquela hora avançada da noite fui obrigado a pegar um táxi para Amsterdã. Ele me custou uma fortuna e me obrigou a controlar severamente meus gastos de ali em diante. Droga. Esse foi meu segundo pior erro de viagem da história.

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Daniel Bender

Jornalista, chato por profissão.

4 responses to “Mochilão na Europa semana VI – De Paris até Amsterdã”

  1. marcio

    Daniel,

    Fui no show do Red Hot no mesmo parque e a chuva foi igual. Mas o show foi ótimo e a capa de chuva segurou a onda!!!

    Ah, estou linkando o Goitacá no meu blog!

    Abs!!

  2. Thaïs

    hehehehe boas venturas e desventuras… Muito bom você falar das desventuras… normalmente tudo é lindo… ninguém quer dizer que pagou uma nota para passar perrenque…. e esses são os melhores momentos… não são necessários mas viram história… hehehehehehehehe

  3. almir

    aquele comentario sobre gays é totalmente dispensável!
    Gimme a break!

  4. Na carona | Dicas de Viagem

    [...] Voltando à França, podemos embarcar no sexto capítulo do mochilão europeu doDaniel Bender, do Goitacá — que nos leva de Paris a Amsterdã. [...]

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