Mochilão na Europa: 1ª semana
Europa, Itália, Mochilão May 26th, 2007
Escrito por Daniel Bender, visite seu site
Vou começar hoje uma série de posts contando o meu mochilão pela Europa em 2000, antes do advento do Euro e do Bin Laden, portanto.
1º Semana
Saí de casa no dia 21 de abril de 2000 às 6h da manhã.
Ao chegar em Milão no domingo no início da tarde do dia seguinte eu estava acabado no melhor sentido da palavra, passara sem dormir toda a viagem desde Novo Hamburgo até agora e ainda por cima havia estupidamente esquecido meu passe de trem(nunca vou me perdoar por isto!). Eu lera num site na Internet que não é muito comum casas de câmbio na Itália, e ainda por cima fecham nos fins-de-semana, o que é muito mais verdade num Domingo de Páscoa, então troquei uma quantidade considerável de dinheiro(dólares) por liras no aeroporto mesmo e paguei uma taxa horrível(do que eu não tinha idéia até ali, pois foi o primeiro lugar que eu vi).

Fui de ônibus até a cidade, pois o aeroporto fica a quase 50 Km do centro de Milão. Ao chegar na estação central, para variar estava totalmente perdido: onde estou? Para onde vou? Que está acontecendo? Como vou? Aonde? Comprei um mapa da cidade e comecei a caminhar em direção do albergue, que era muito, muito longe dali, mas eu estava no começo, portanto achava que conseguiria caminhar até lá da estação, desisti e peguei o metrô. Ao chegar lá vi o maldito fechado e com um aviso dizendo que continuaria assim por mais algumas horas (provavelmente a sesta, sei lá). Havia um argentino esperando pela abertura também e lhe pedi que vigiasse minha mochila enquanto eu dava uma volta na cidade.
Comi meu primeiro Big Mac em território italiano… e depois dei uma passado no estádio do Milan que não é muito longe do albergue e voltei mais cansado do que nunca. O albergue já estava aberto e o argentino estava ali para me devolver minha bagagem, graças a deus! Minha felicidade foi imensa ao ver a cama (não que ela fosse algo excepcional, mas porquê eu estava precisando muito mesmo), dormi até a noite. Ao acordar fui dar uma volta pelo albergue que é bem organizado, mas despojadíssimo. Meio militar até. Encontrei o argentino, se chamava Franco, e começamos a conversar.
Eu para variar não conseguia conversar em nenhuma língua, seja inglês, espanhol, italiano ou português; era uma misturança braba e a necessidade de repetir tudo três vezes. Decidimos que no próximo dia iríamos ver o centro de Milão e conhecer Como, e fomos. Lombardia, onde Milão é a capital, é uma das regiões mais desenvolvidas e ricas do mundo, desde a Idade Média é uma terra cobiçada por todos os conquistadores do continente, o que reflete no belíssimo Castelo Sforzesco no centro da cidade e a arquitetura de Milão é uma viagem no tempo. Ao se caminhar mais de duas quadras pode se ver o seguinte: belíssimo prédio gótico, catedral gigantesca, McDonald´s, Pizza Hut, prédio gótico.

É… Milão é a cidade italiana mais arrojada e mais moderna da Itália o que pode significar mais assimilada do país. Como é uma cidade como Gramado, para turistas e naquele dia em especial, segunda-feira de páscoa que é feriado na Europa, estava cheia de turistas italianos. Há um belíssimo lago em Como, que recorta os pés dos Alpes. No dia seguinte Franco partiria para alguma cidade no interior para localizar seus parentes e eu iria para Bérgamo passar o dia.
Bérgamo é uma cidade moderna e antiga ao mesmo tempo, mas conseguiu separar isto de uma forma mais eficaz do que Milão, pois há um centro histórico que fica muito longe do centro financeiro da cidade. Pois bem, nas ruas estreitas de Bérgamo todas as casas são coloridas a impressão é de novo uma volta no tempo até que um moderna lambreta passa buzinando…
A cidade me pareceu muito próspera também e serve como imã para imigrantes, o que pode ser comprovado pela diversa população local. Ao voltar para o albergue me deparo com o inusitado, eu vestia uma camisa do Grêmio, que apesar do que alguns possam dizer não é tão popular assim na Europa. Pois bem, ao chegar um rapaz me pergunta: “Porto Alegre?”, “Não, Novo Hamburgo”, “Putz, eu também”. Esta coincidência é muito grande, tão grande que jamais encontrei ninguém de Novo Hamburgo novamente.
Mesma escola, mesma universidade, bairros vizinhos, pois é. Nos combinamos de encontrar em Florença no dia seguinte, caso eu recebesse o maldito passe de trem ou em Roma na quinta, caso eu recebesse o maldito passe de trem.
Na Quarta-feira, para variar, minha sorte não havia mudado e então comecei uma peregrinação por algum lugar em Milão com acesso à Internet. Havia boatos de que existiria um lá depois do… muito longe. Mas eu fui atrás, caminhei por toda a cidade e ao chegar lá perguntei: “C´è Internet?”, “No, tutti i computer sono rotti”, “tutti?”, “Si, tutti”. Todos os computadores estavam quebrados, ahh!!! Não desisti continuei minha peregrinação desta vez sem destino. Encontrei um lugar, meio caro, mas tinha Internet. Algumas páginas não funcionavam direito, vou para outro lugar, além do mais aqui é muito caro.
Comecei a procurar por outro lugar, estava chegando numa praça e vi do outro lado da rua uma lojinha cheia de computadores, “só pode ser um cybercafé” eu pensei e ao entrar na loja um rapaz meio gay veio me atender, “prego” ele disse, “accesso all´internet?”, “Internet?” desconfiado pensou e começamos a conversar, como meu italiano não estava muito além de mozzarella, começamos a falar em espanhol, que não estava muito além de parrillada também a confusão lingüística foi total. No fim ele acabou me cedendo o seu computador um iMac que não funcionava direito para eu continuar mexendo no que eu precisava.
Ao voltar para o albergue dei uma passada no escritório da DHL que não era muito longe de lá e depois encontrei um outro brasileiro na rua, “onde tu tá indo?”, “Comprar a janta” ele me respondeu. Fui junto, nós compramos um frango inteiro, daqueles de TV de cachorro e seis garrafas de água(9l no total). Após o banquete decidimos ir a Roma na Quinta-feira de qualquer forma, se eu não recebesse meu passe eu pagaria a passagem, já estava de saco cheio de Milão.
Na Quinta-feira eu estava esperançoso de que o meu passe seria entregue, mas ainda não. Sai do albergue e fiquei ligando de hora em hora para a DHL, procurando pelo maldito. Ao redor do meio-dia eu estava no McDonald´s - novamente - e encontrei dois gaúchos que iam jogar bola ali perto, os acompanhei. Eles trabalham num restaurante brasileiro em Como, um é de Encantado e outro de Porto Alegre. Conversa vai, conversa vem, liguei de novo para a DHL às duas da tarde, pedi para entregarem o maldito na matriz em Roma e decidi, agora eu vou! Depois de quatro dias em Milão eu estava mais do que de saco cheio daquela cidade.
Fui até a estação e comprei uma passagem, a mais barata, para Roma - na real que não tem disso, só tinha uma linha à tarde e era da mais cara… Um pouco antes das nove da noite eu já estava em Roma. Ao ligar para o albergue pedindo direção, perguntei se podia falar inglês, não italiano. Tá bom, não entendi direito e ao invés de pegar à sinistra, peguei à destra e já estava chegando num lugar meio barra-pesada quando eu me dei conta. Merda, melhor voltar rápido; ao chegar na estação, passei-a, andei mais cinqüenta metros e dobrei à direita, era ali. Merda repeti, era aqui do lado e eu já estava indo em direção ao cú do mundo.
Entrei no albergue e fiz o check in, o recepcionista me parecia canadense, e como tal não falava italiano, lhe perguntei então porquê me haviam dado as direções em italiano, ele disse que fora o seu companheiro que estava ao lado e porquê ele é um idiota(dumb ass). Tsc, tsc. Quando cheguei no quarto tinha um pessoal falando sobre coisas das quais eu não entendia, pois era num inglês incrivelmente informal e canadense(e apesar do que se diga eu só estava acostumado com aquele falado na Califórnia e que está em todos os filmes de Holywood). Me apresentei e blá-blá-blá, tentei conversar, mas foi meio complicado.
Na sexta pela manhã, pensei “eu não quero passar o dia sozinho, preciso de companhia”, então fui à luta. Haviam três soldados canadenses que estavam na Bosnia junto com a força de paz da ONU em licença, pois lhes perguntei onde iriam naquele dia e decidi juntar-me à eles. Fomos primeiro até o Coliseo e o Fórum Palatino - que na verdade é um sítio arqueológico gigante. Só aqui(é, em Pompéia também) pode-se ter uma idéia aproximada do tamanho do império romano. Seguimos para o Campidoglio - uma impressionante coleção de prédios que serve de trono para o governo - e então para a Piazza Venezia que é onde se localiza um monumento gigantesco à Vitorio Emanuelle II (o primeiro rei italiano depois da unificação) e à sua direita o Palazzo Venezia, que servia de tribuna para os discursos do fascista Mussolini.

Da piazza Venezzia caminhamos um pouco, na verdade bastante em qualquer direção - o que é a melhor forma de descobrir uma cidade, caminhando sem destino. E o que encontamos? Sim, uma exposição itinerante do Salvador Dalí, que estão por toda aparte, mas eu não tinha condições de saber disto àquela altura. Depois de algumas provas da loucura e criatividade do catalão seguimos nossa jornada sem destino. Caminhamos até um ponto onde havia um quiosque de informações turísticas, e aproveitamos então para conseguir um mapa decente da cidade, munidos de informação seguimos para a Piazza Navona, qual não é a nossa surpresa ao encontrá-la virando a esquina! A piazza em si é uma ilha de praça com duas fontes belíssimas cercada por monumentais fachadas históricas que hoje abrigam os mais caros cafés para turistas que eu já visitei.
Para que ninguém pense que Itália é outro mundo, no centro da praça aglomeram-se alguns camelôs, e de um deles comprei uma bonita camisa falsificada do Milan por oito vezes mais barato que a original. Seguindo nossa romaria em direção aos pontos turísticas de Roma, fomos então ao Panteão. Um prédio de dois milênios de história que ainda hoje impressiona pela beleza arquitetônica tanto de seu interior como os arredores, misturando diversos estilos divergentes, como clássico, barroco e renascentista.
Lá dentro encontramos um padre uruguaio e uma freira de não-me-lembro-onde, a freira traduzia o que ele dizia para o inglês, não que eu precisasse, pois meu portunhol estava afinadíssimo! Mas os canadenses não tinham a mesma desenvoltura latina que eu possuo… “ele gosta de meninos(boys)” ela disse, nós nos olhamos e nos despedimos dos relgiosos achando que o padre fosse gay. Mike um filipino naturalizado canadense na verdade chamado Miguel se arrependeu e voltou ao Panteão para tirar uma foto com o sacerdote “homossexual”.
Preconceitos à parte continuamos caminhando, a esta altura o cansaço já estava batendo e decidimos voltar para o albergue para fazer qualquer coisa ou lavar roupa, o que viesse antes. Fomos lavar roupa, enquanto à máquina trabalhava fui conhecer as redondezas, desta vez sozinho, e me deparei com meu tipo favorito de loja, a lojinha de Cd´s da esquina. Foi só eu entrar e eles - aqueles que estavam atendendo e papeando - já perguntaram-me donde era, respondi. Ah brasiliano, molto bene, calcio, samba, meninas e uma dificuldade tremenda de comunicação.
Havia um baterista de uma banda local ali e ele me ofereceu um CD e tal acabei levando um ganhando outro de graça ainda com um autógrafo do cara que devia estar cheirado já. Tudo bem, tudo vale a pena se a alma não é pequena. A noite fomos num Pub Crawl na Scalinata de Spagna(escadaria espanhola), que é nada menos que uma galera que se reúne e vai de bar em bar noite adentro, fomos em 6 ontem só até a meia noite!!! Para variar todos bebiam, menos eu, no início me cobraram pela bebida, ainda consegui um desconto. O grupo era mais ou menos homgêneo, haviam muitos estadunidenses, canadenses(que ficavam me pentelhando gritando gol!!! A cada vez que os via), australianos e neozelandeses.

Em resumo todos falavam sua íngua ali, menos eu que falava a deles. Já sou duplamente diferente. O resultado é que nesta noite adquiri uma fluência incrível em inglês. Ainda paguei uma dose de caninha 51 para um grupo e todos adoraram, incrível, não pode ser a mesma que é vendida no Brasil. Mas tudo bem, foi tudo festa.
Os irlandeses beberam ate começarem a cantar no meio da rua e a se abraçarem e se beijarem(pra variar não sabiam quem era quem e abraçavam qualquer um e beijavam qualquer um, menos eu, claro), os australianos vomitaram de bêbados, o estadunidenses beberam tanto que se perderam numa praça quadrangular, o canadenses perderam sua famosa civilidade e começaram a procurar briga e estragar os carros(é verdade, eles também sabem ser vândalos), o neozelandeses e brasileiros que não beberam muito(no meu caso, nada) guiaram todos até o albergue tentando pentelhar mais ainda os bêbados: “vocês soldados canadenses não passam de um bando de bichinhas(bunch of pussies)!”. .
No sábado acordei lá pelas nove e eu ia fazer mais turismo c/ os canadenses infelizmente eu me perdi deles, não sei como. Então fui atras do meu passe de trem, a central da DHL fica no numero 1010 de uma das maiores avenidas de Roma(via Tiburtna), eu desembarquei próximo do 350. A diferença é q na Itália os números vão em seqüência mesmo, tipo se um prédio é o 871 o vizinho é 873, independente do tamanho do terreno(o que importa no Brasil) então eu caminhei quase duas horas para achar o maldito prédio da DHL e ainda tive que implorar para me atenderem pois era sábado e ninguém trabalha depois da uma em sábados na Itália( e já era 1:05), mas consegui o passe, voltei até o metro mais próximo no numero 970(quase me matei por isto) então fui ate o Vaticano.
A merda é que os museus do Vaticano fecham as 12:45, então quando eu cheguei lá estava já fechado, pensei então “vou até a basílica de São Pedro”, má idéia. Estava cheia de gente e chovia muito, depois que estava todo molhado comprei relutantemente um guarda-chuvas por 5.000 liras(pechinchei, pois o cara queria 10.000) dali fui até o Museu Etrusco que eu ingenuamente pensei que fosse perto do metro, mas não era.
Desisti e fui em direção ao centro, passei pela Piazza del Popolo, pela Fontana di Trevi(onde joguei duas moedas, dizem q todos q jogam moedas voltam à cidade). Depois vim para o Albergue e troquei de roupa, como resultado desta aventura molhada fiquei resfriado. Ao chegar no albergue descubro que o Vinícius, o cara de Novo Hamburgo assim como eu, havia me procurado. Legal, companhia pensei.
Fui até o quarto onde ele estava e quando ele me cumprimentou eu respondi em inglês(Ugh!!!). Ele havia chego no dia anterior e blá-blá… Com ele no quarto estava Xavier, mexicano muito simpático e quatro belas australianas que só pensavam em beber. Para variar australiano sempre bebe. Saímos à noite num Pub próximo ao albergue, nada demais e cheio de homem(Ugh!), não que eu estivesse precisando de sexo ou qualquer coisa parecida, mas é que num ambiente homossexual assim só dá briga, ainda mais se as pessoas forem heterossexuais, como meu caso(não gay). Desistimos da noite de Sábado, tsc, tsc. Ah, de quebra ainda ganhei um resfriado.
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Meu mochilão foi em 98. Não gostei de Milão e depois de um dia super frio decidi usar meu passe de trem. Fui para Bari delá para Brindisi para ir à Grécia de ferry boat.
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