Mochilão na Europa semana IV – De Madri até Lisboa

No domingo eu continuei minha peregrinação até o Palácio Real, luxuoso e belíssimo, onde fui barrado para entrar. Não permitem canivetes na casa do rei. Deixei ele, disparado a mais importante ferramenta a ser carregada em viagem, com os seguranças e fui conhecer o interior do lugar. Não preciso dizer que esqueci o canivete lá, né?

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Além de luxo e ostentação, o que mais se esperar do lugar onde alguns dos mais poderosos reis da Europa viviam? Certo, acertou quem chutou Velázquez http://pt.wikipedia.org/wiki/Diego_Vel%C3%A1zquez, cuja obra-prima As Meninas foi pintada ali, e Goya, pintor oficial do império no final do século XVIII.

Na segunda pela manhã embarquei para Sevilha e não participei da grande festa popular que se iniciaria devido ao dia de San Isidro, patrono da cidade.

Sevilha é deveras impressionante, possui traços árabes, romanos, góticos e o menor número de McDonalds por habitante de todas as cidades que estive antes. Isso, obviamente, é um alívio.

Achar um lugar para ficar foi uma briga feia, já que a cidade é razoavelmente mais desorganizada que as outras espanholas onde estive. A impressão mais marcante da cidade, porém, foi seu estereótipo espanhol. Tempero, sol, dança flamenca, touradas e cavalos andaluzes dividem seu espaço numa cidade que é um dos baluartes do jeito espanhol de ser. Então segui até a Real Maestranza (touradas) e caminhei pela cidade.

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Na terça fui ao alcazar (palácio do sultanato) que mostra claramente como os muçulmanos eram superiores aos europeus medievais. Então almocei muito bem no bairro Santa Cruz, que era um gueto para judeus durante o reinado de Fernando III e hoje é cortado por vielas e travessas charmosas. Ali perto está a terceira maior construção gótica do mundo, uma catedral construída sob a base de uma mesquita que talvez guarde os restos mortais de Cristóvão Colombo (outras cidades reinvidicam a mesma honra).

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Segui então para a estação ferroviária reservar uma passagem para Lisboa. Fui ainda ao Museu arqueológico de onde me expulsaram na hora do fechamento. Malditos espanhóis.

Na quarta comprei um tênis novo. O meu antigo estava em estado de profunda destruição. Barganhei tanto que acabei levando uma porcaria de tênis. Depois de minha rápida compra fui novamente à luta, quero dizer, continuei minha viagem. Fui até o Arquivo das Índias, onde estão expostos documentos relativos ao descobrimento e exploração das colônias espanholas até o momento em que Sevilha perdeu o monopólio mercantil com as Américas (OBS: naquela época era moda conceder monopólios à nobreza e às cidades).

Voltei ao albergue para pegar minha “bagagem” e embarquei num ônibus circular pinga-pinga (sim eles estão por toda a parte). Neste ônibus segui por toda a cidade e desci não muito longe de onde subira, uma hora e meia depois em frente à estação de trem.

Como só há um trem diário para Lisboa e ele parte de Madri, eu tinha que pegá-lo em algum lugar. Para não exagerar muito, digo que o trem que me levou de Sevilha a Cáceres, perto da fronteira com Portugal foi o mais lento e barulhento que eu já peguei na minha vida. Em Cáceres duas australianas estavam tendo problemas para conseguir passagens, fui lá e tentei ajudar.

Depois do entendimento comecei a conversar com as duas, blá-blá-blá prum lado, blá-blá-blá para outro lado e elas me perguntam se por acaso eu também falava português já que viram eu resolver a situação em espanhol. “Claro!” respondi.

Mas por que? perguntaram novamente, pelo mesmo motivo que vocês falam inglês na Austrália. Mesmo assim não entenderam. Desisti.

Tive que esperar ainda quatro horas na estação de Cáceres pelo trem para Portugal, o resultado é que eu cheguei em Lisboa, na manhã seguinte, arrasado. E lá, a glória de todo brasileiro, um lugar na Europa onde poderia pôr em prática vinte e tantos anos de estudo nativo da língua portuguesa…

Na tarde de quinta fui dar uma volta pela cidade, subi até a Fortaleza de São Jorge, de onde se tem uma estupenda vista da cidade. Na subida do morro comi um cozido à portuguesa num restaurante desaconselhável para turistas no histórico bairro da Alfama, mas depois de ter passado por quatro países diferentes este era o que mais se parecia com minha casa. A grande vantagem de se falar bem a língua dos locais estava evidente. Nenhum lugar era estranho o bastante.

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Depois cruzei a cidade através da Cidade Baixa, onde se encontram obras marcantes na história lusitana como o monumento aos restauradores (aqueles caras que restauram o reino português em 1640, inclusive expulsando os holandeses do Nordeste), até o Bairro Alto. Estes dois bairros sintetizam muito da cidade após o terremoto que a destruiu por volta de 1755 e só poupou a Alfama.

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A sensação de caminhar por Lisboa é muito parecida com algumas cidades brasileiras históricas que eu conheço como Porto Alegre e Salvador, é ainda mais parecida com a segunda, pois a capital lusitana acolhe anualmente um grande número de imigrantes e refugiados africanos. Tornando este país europeu cada vez mais parecido com suas ex-colônias. Ironia do destino.

No final da tarde decidi que era mais do que hora de lavar minhas roupas, me informei onde era. Tudo pronto, parti. A única lavanderia self-service de Lisboa ficava a uma distância enorme do albergue onde eu me hospedava. Três estações de metrõ, mais umas sete quadras lomba acima, sem contar que eu estava de chinelo havaianas. Cheguei lá e a dona, uma simpática senhora que repetia tudo dez vezes para eu entender o sotaque, me disse que não podia lavar minhas roupas.

Eu já pensei em fazer o maior escarcéu, dizer que era só porque eu uso o gerúndio e tudo o mais. Quando decidi que antes perguntaria porquê. Não tem água, ela me disse.

Bah! Voltei ao albergue então demolido de carregar roupa suja na ida e na volta. Se estivesse pelo menos mais limpa teria uma motivação especial para voltar, mas assim não dava.

À noite saí com um pessoal do albergue, loucuragem total, fomos de bar em bar no Bairro Alto até de Madrugada. Nesta noite encontrei o lugar mais absurdo do mundo. Um bar com entrada liberada (sem convite) e copa livre. Só em Portugal mesmo. Vale dizer que era aniversário do lugar, mas mesmo assim era uma tremenda promoção de português…

Na sexta-feira fui até Belém, uma espécie de subúrbio Lisboeta onde se encontram diversas atrações turísticas, como o Mosteiro dos Jerônimos(construído para agradecer o sucesso da viagem de Vasco às Índias), a Torre de Belém, o Museu nacional dos coches (carruagem na língua deles) e o Museu da Marinha.

O Mosteiro é mais bonito por fora, não desmerecendo o interior, mas é que a fachada é muito impressionante. A Torre oferece uma magnífica vista do Tejo e Atlântico, ela data da época em que Portugal era uma potência intercontinental. Apesar disto, não tem muita graça, é quase como a Ponte do Rio Guaíba. É interessante, mas não vale a pena ir até lá só para isso.

O Museu da Marinha é interessantíssimo, pois narra toda a história do país a partir da unificação portuguesa, lá pelo fim da idade média até a atualidade. Tem algumas réplicas em tamanho real de navios e um porção de miniaturas cuidadosamente planejadas.

À noite, para variar, saí de novo com um pessoal do albergue. Mas desta vez o grupo era mais internacional, tinha dois brasileiros(eu mais uma paulista pagodeira), três italianos, uma belga que falava português, uma australiana e uma porção de portugueses. A paulista ficou o tempo todo se mostrando, dançando aquelas coisas pagodeiras e o pessoal ficou me perguntando porquê eu não dançava também, afinal todos os brasileiros são assim, certo?

Estereótipos à parte, só não fui embora antes por que estava muito longe do albergue e teria de pegar um taxi. O que não é recomendável fazer sozinho quando se tem pouco dinheiro. Tive de agüentar aborrecido até as cinco da manhã, quando quase todos os bares lisboetas fecham as portas.

No sábado fui até Sintra – um antigo destino dos chiques portugueses. Lá tem alguns palácios e uma fortaleza. O primeiro, Palácio Nacional de Sintra, tem duas chaminés muito estranhas e era a residência de verão dos antigos sultões e seus haréns, o segundo, Palácio Nacional da Pena, é uma suntuosa casa de campo do deposto rei português.

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O Castelo dos Mouros foi construído no topo de uma montanha pelos mouros no século VIII, isto mesmo VIII e ainda está de pé. Isto porquê não foi o Sérgio Naya que construiu… Ainda me é difícil imaginar como os portugueses conseguiram conquistá-la dos muçulmanos sem pólvora.

De quebra ainda comi um bacalhau à portuguesa em Sintra, delicioso.

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Daniel Bender

Jornalista, chato por profissão.

2 Comments

  1. Judith

    Hi, can the autor of this great article give me the adress of the only self-service laundry in Lisbon? I need to find one!!! and indeed, it seems impossible!…thanks! ;o)

  2. Mariana

    Olá, estou morando em Lisboa e estou correndo atrás de lavanderia self service, então encontrei o teu site pelo goolgle. Por algum acaso tu lembras onde ficava esta que você ia?
    Valeu

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